ÉTICA MODERNA

Por Pierson Sena, piersonsena@yahoo.com.br, aluno do curso de Desenho Industrial, da Universidade Federal de Santa Maria, para a disciplina de Ética Profissional, do curso de Direito Noturno da mesma instituição.

Denomina-se de Ética Moderna as diversas tendências que surgiram nesse campo a partir do século XVI até o inicio do século XIX. E, embora não seja fácil sistematizar todas as doutrinas éticas que se desenvolveram nesse período, podemos dizer que em oposição à ética teocêntrica religiosa, a ética moderna segue a tendência antropocêntrica.
A alteração de ponto de vista dentro do campo ético aconteceu ao mesmo tempo em que as mudanças na economia, política e ciência se consolidavam. Tais transformações ocorreram conforme o sistema feudal foi sendo substituído pelo modelo capitalista de produção.
Juntamente com o capitalismo, se estabeleceu uma nova classe social, a burguesia, que lutou para se impor política e economicamente. Ao mesmo tempo, influenciado pela burguesia, surge o Estado Moderno, modelo estatal onde o poder é centralizado.
A partir disso temos o rompimento entre razão e fé; ciência e religião; estado e igreja; o homem e deus.
Essa ruptura entre o sistema teocêntrico feudal e o antropocentrismo capitalista é evidenciada por Maquiavel quando rompe com a moral religiosa ao defender que o estado deve ter uma moral própria. Segundo Maquiavel, o uso da violência contra os que se opõem aos interesses estatais é plenamente justificável uma vez que importam os resultados e não a ação política me si.
A partir de Descartes surge a ética antropocêntrica onde a filosofia tem como base o homem, que passa a ser o centro da política, da arte e da moral.
Thomas Hobbes foi o primeiro a descrever a ética do desejo da conservação própria, existente em todos os seres humanos. Para ele os homens são solitários por natureza, egocêntricos, agressivos e possuidores do desejo de ganho imediato e o que leva os homens a viver em sociedade e se comportar de forma socialmente aceita é saber que cooperando entre si podem ser mais ricos e felizes.
Espinosa concorda com Hobbes ao afirmar que os homens tendem naturalmente a pensar em si mesmos e que seus desejos são sempre conduzidos por suas paixões, sem levar em conta o futuro ou as outras pessoas.
Sobre esse tema Locke pondera que a vantagem na vida em sociedade ocorre quando cada homem aprova e recomenda as regras para tal, de forma que persuadindo os demais passa a obter vantagens pessoais.
Seguindo essa linha, David Hume descreve que o fundamento da moral é a utilidade, ou seja, a ação é boa se proporciona felicidade e satisfação à sociedade. Para ele o principio da utilidade agrada porque o homem tem uma tendência em promover a felicidade dos outros. Esse conceito é baseado da idéia de que algumas de nossas paixões estão relacionadas com a empatia, ou seja, sofremos com o sofrimento alheio, assim como ficamos felizes com a felicidade dos outros. Sendo assim, fica impossível dividir os interesses, uma vez que o alheio pode tornar-se pessoal.
Para Rousseau o homem é bom por natureza e seu espírito pode aprimorar-se ilimitadamente.
Kant foi quem estabeleceu o principio da deontologia. Para ele, o dever é o ponto central da moralidade, a boa vontade é a única coisa boa em si mesma, o homem deve reconhecer a existência de outros homens respeitando-os e se comportando diante deles de acordo com esse reconhecimento e um ato só é moralmente bom se puder se tornar uma lei universal.
Hegel divide a ética em pessoal, que é a consciência do dever, e social, formada pelos costumes, leis e normas da sociedade, sendo que o estado reúne esses dois aspectos. Dessa forma a vontade pessoal é influenciada pela vontade social que regula e normatiza as condutas individuais de acordo com valores e costumes de determinada sociedade em determinada época. Para ele o ideal ético deveria ser vivido dentro de um estado livre e de direito, onde consciência e lei estariam em harmonia, dessa maneira os valores sociais seriam internalizados por um sujeito moral que os aceitaria livremente através de sua vontade individual.
Para Marx a moral também tinha uma função social e, em uma sociedade dividida em classes antagônicas, ela serviria para definir relações e condições de existência de acordo com a classe dominante. Até hoje existem diferentes morais para diferentes classes, dessa forma não pode existir uma moral universal e atemporal. De acordo com essa idéia, sempre que se tentou criar uma moral universal, essa refletia interesses da minoria dominante, sendo assim os homens necessitariam de uma moral que não fosse reflexo das relações sociais vigentes. Está lançada a base do pensamento socialista.
Segundo Nietzsche, atribui-se um valor moral superior do bem em relação ao mal, ao progresso e ao desenvolvimento humano. Dessa forma a moral seria um mecanismo que o impede de atingir valores superiores, nivelando a todos; a moral seria o maior de todos os perigos.
Nietzsche transforma o homem em ser capaz de transmutar valores, e o bem em tudo que intensifica no homem o sentimento de poder, a vontade de poder e o próprio poder. O mal seria tudo que vem da fraqueza.
Ao final concordo com o que Nietzsche propõe, ou seja, existe a necessidade de uma crítica a todos os valores morais, devendo o homem, antes de tudo, discutir o valor dos valores e o ambiente em que se desenvolveram e se deformaram tai valores.

Bibliografia

CANTO-SPERBER, Monique. Dicionário de Ética e Filosofia Moral. São Leopoldo: Unisinos, 2007.891 p.
MARITAIN, Jacques. A Filosofia Moral: Exame Histórico e Crítico dos Grandes Sistemas. Rio de Janeiro: Agir, 1964. 508 p.
SÁNCHEZ VÁZQUEZ, Adolfo. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984. 267 p.